terça-feira, 30 de janeiro de 2018

As duas bandeiras e as duas escadas


As duas bandeiras e as duas escadas como chave heurística para a vida cristã: estudos bíblicos e os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola

Álvaro César Pestana – 2018
 
alvarocpestana@gmail.com

Introdução

Devido ao privilégio de participar de um retiro de espiritualidade inaciana no fim do ano de 2017, tomei contato com uma figura altamente reveladora, descrita nos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola (INÁCIO, 1999, p. 32-33, §136-148). Embora o texto original tivesse o objetivo de conduzir o fiel à devoção ao Senhor, a figura funciona como uma chave heurística[1] para a vida cristã.

O objetivo deste ensaio é demonstrar como esta figura dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola funciona como uma ferramenta que esclarece e aprofunda a compreensão acerca da vida cristã.

Discussão

O texto dos Exercícios Espirituais no qual se percebe esta lição, está nos parágrafos 136 a 148, no quarto dia, onde se narra a Parábola de Duas Bandeiras. Inácio aproveita de sua antiga ambientação militar, e fala de duas bandeiras e seus respectivos capitães: (i) Cristo, o sumo-capitão e nosso Senhor, com sua bandeira; (ii) Lúcifer, o inimigo da humanidade e sua bandeira.

Cristo chama a todos e todas para debaixo de sua bandeira e, em oposição, Lúcifer atrai a humanidade para ficar sob a dele. Os locais de congregação também são distintos. Os de Cristo vão para os campos de Jerusalém, mas os de Lúcifer se encontram nos campos de Babilônia.



Figura 1 – As duas bandeiras e a duas escadas

A tentação de Lúcifer consiste em seduzir os homens (i) pela cobiça de riquezas e (ii) pela busca da honra vã deste mundo. Isto resulta em (iii) grande soberba. Desta forma, todos os vícios e pecados conseguem ter raiz e ficam disponibilizados aos homens sob a bandeira de Satã.

O envolvimento com Cristo, contudo, é feito por meio da missão de ajudar e ensinar a todos, começando com (i) a pobreza espiritual seguindo-se da (ii) humildade para experimentar o que vem pela frente, (iii) opróbrio e perseguição por causa de Cristo.

Importante é a observação de que as escadas relativas a cada opção realizam movimentos opostos: a escada de Satã propõe uma elevação (leva para cima), enquanto que a escada de Cristo propõe um rebaixamento - um esvaziamento - que leva para baixo.

O Diabo faz a proposta de “engrandecimento”, de ter coisas que dão segurança e bem-estar, alimentam a vaidade, o orgulho, e capturam a pessoa na busca incessante de posições, cargos e situações de destaque. O resultado inevitável é a soberba decorrente destes enganos baseados em honras obtidas e falsas seguranças.

Ora, as três tentações que Satanás ofereceu a Jesus no Evangelho de Mateus (Mt 4.1-11), são semelhantes e correspondem aos degraus da escada sob sua bandeira.

1ª tentação
2ª tentação
3ª tentação
Transformar pedras em pães
Atirar-se do pináculo do templo
Adorar o Diabo para receber os reinos
TER/POSSUIR ao invés de aceitar a pobreza e confiar em Deus acima de tudo
Obter HONRAS/ORGULHO ao invés de permanecer humilde e obediente
A SOBERBA do poder e domínio ao invés de sofrer em semelhança de Cristo
(1) O desejo da carne
(1Jo 2.16)


(3) A soberba da vida
(1Jo 2.16)
(2) O desejo dos olhos
(1Jo 2.16)
Figura 2 – As tentações de Cristo e os três degraus da escada de Lúcifer

Cristo, por sua vez, oferece para os discípulos um caminho descendente, similar ao que ele mesmo trilhou. Jesus optou deliberada e claramente pela pobreza (Lc 9.58). Tanto no seu esvaziamento das glórias da divindade (Fp 2.5-8), como em sua conduta geral de se fazer pobre para nos salvar (2Co 8.9), desperta e ensina a humildade (Mt 11.29) que o leva a ser desprezado e vilipendiado (Hb 12.2).

O ensino de Jesus, em vários aspectos, mostra esta trajetória do fiel. Na própria sequência das bem-aventuranças, em suas duas versões, se observa isto. O caminho do fiel é igualmente observado nas palavras de Jesus ao chamar seus discípulos:

Pobreza
Humildade
Opróbrio
Bem-aventurados os pobres no espírito
Mt 5.3
Bem-aventurados os
que choram
mansos
que tem fome e sede de justiça
misericordiosos
limpos de coração
pacificadores
Mt 5.4-9
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça
Mt 5.10-12
Bem-aventurados os... pobres
Lc 6.20
Bem-aventurados...
os que agora tendes fome
os que agora chorais
Lc 6.21
Bem-aventurados...
quando vos odiarem...
quando vos expulsarem... vos injuriarem e rejeitarem...
Lc 6.22-23
A si mesmo se negue...
Mc 8.34
... tome a sua cruz...
Mc 8.34
... e siga-me.
Mc 8.34
... o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça
Lc 9.58
Deixa os mortos o sepultar seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus.
Lc 9.60
Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é digno do reino de Deus.
Lc 9.62
Figura 3 – As Bem-Aventuranças, o chamado do discípulo e os degraus da escada de Cristo

Nessas duas bandeiras e escadas (Figura 1) propostas por Inácio de Loyola, o que mais fascina é seu poder heurístico; encontramos nessa ilustração uma grande verdade sobre a vida cristã, que nos ajuda a compreender e avaliar a nossa trajetória. Usamos a ideia de heurística no sentido de ciência ou arte do descobrimento: refere-se a um procedimento que permite chegar à verdade por sua própria análise ou método (MICHAELIS, 1998, p. 1088; HOLANDA, 1975, p. 721).

Muitas vezes, o discípulo de Cristo é desprezado. Isto ocorre habitualmente no seu relacionamento com o chamado “mundo”, ou seja, com aqueles que não acolhem os valores e a fé em Jesus. Contudo, o desprezo e o opróbrio também ocorrem dentro da comunidade cristã, que embora não devesse oprimir os seus, muitas vezes, discriminam (in)justamente os mais comprometidos.

O ponto deste texto é observar que a figura das duas bandeiras com as duas escadas explica estes fenômenos para o fiel. Por que há boicotes e maledicência contra os que se dedicam a viver com integridade e fidelidade a Jesus? Por qual razão dá-se mais honra e bajulação a pessoas por causa de seu destaque socioeconômico?

É interessante e simples observar e refletir sob qual bandeira e em qual escada cada pessoa se encontra:

O povo cristão comprometido escolhe a pobreza com Cristo e não a riqueza do mundo; escolhe o desprezo de Cristo ao invés das honras vãs; deseja ser considerado louco e insensato em Cristo do que ser sábio conforme esta era. Portanto, o fiel não se admira quando lhe sobrevêm a perseguição e a oposição associadas ao opróbrio de Cristo.

Pelo contrário, quando o discípulo sofre por causa de Cristo, considera estes sofrimentos como uma honra – eles estão sendo considerados dignos de sofrer afrontas pela pessoa de Cristo (At 5.41). Cumpre-se em cada fiel, o anúncio dos apóstolos onde “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12), pois “através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14.22). Assim, não nos inquietamos com as perseguições, pois estamos designados para elas (1Ts 3.3), pois nos foi concedida a graça de padecer por Cristo e não apenas de crer nele (Fp 1.29).

É esta reversão da honra que o autor da Epístola aos Hebreus trabalha em seu livro (DESILVA, 1999, p.36, 117-118.). Assim como Moisés preferiu a desonra com o povo de Deus, à honra dos ricos opressores (Hb 11.24-26), assim também os discípulos de Cristo abandonam a “cidade”, as honras, os valores da sociedade descrente, indo para “fora da cidade”, onde Cristo fora crucificado, levando a vergonha e a desonra de Cristo como a maior honra e o melhor tesouro (Hb 13.12-13).

O evangelho que é loucura e vergonha para a sociedade em geral, para o povo de Deus é poder, honra e força (1Co 1.18-31). Anders Nygren falava do cristianismo como “transvaloração de todos os valores da Antiguidade” (NYGREN, 1957, p. 57, 65, 77, 200-207). Esta transvaloração de valores ocorre na frase “pois não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Ora, no mundo antigo, o evangelho do crucificado era tido como vergonha e desonra, mas para os fiéis, os valores são outros.

Na minha experiência pessoal, percebi que há ambientes onde, embora a profissão de fé seja cristã, os procedimentos valorizam o que está sob a bandeira de Satã: Progridem e são valorizados em degraus de posses, honras e soberba... pelo que têm.
Os que não têm riqueza, beleza nem popularidade, recebem, com certa “condescendência”, um olhar de aparente aceitação e inclusão, mas que na prática, resulta em desprezo e marginalização, pois, para o grupo majoritário e dominante, “nenhuma beleza havia que ... os agradasse” (Is 53.2).

Por outro lado, os que têm, são cada vez mais honrados, bajulados, atendidos e se tornam o centro das atenções. A bajulação é praticada por meio de apoio, convites, espaços acolhedores e popularidade para os bajuladores e bajulados que comungam dos mesmos valores e objetivos. Essa ação em bloco, cega, ensurdece e os imuniza de quaisquer vozes proféticas vindas da parte de outros que não participam dessa dinâmica do ter e bajular.
Os programas, as palestras, a atenção, o espaço, o financiamento, são dirigidos aos bajulados que por sua vez também bajulam para continuar recebendo e continuar a TER. O resultado é que a vanglória, a falsa honra, os falsos valores triunfam nestes meios de aparente santidade bem-sucedida.

É assim que um clima de soberba irreparável se estabelece. A soberba é tão poderosa e dominante que obscurece a percepção de sua própria malignidade e pecado. Para o soberbo, o arrependimento, a conversão e a convicção do erro ficam cada vez mais distantes de ocorrer.

Dessa forma, progridem os valores de Satã no meio da comunidade “cristã”. Não há honra para os que optam pela pobreza: eles são olhados com estranheza e desprezo, e mesmo em meio a uma aparente tolerância, não têm influência e respeito.

Sua opção pela humildade faz com que se recusem a usar as ferramentas da bajulação e da politicagem para dar-se bem: o humilde optou por tudo deixar e pautar-se pelos valores do evangelho. Logo, ele não joga o jogo da busca de vantagens pessoais por meio da concessão de honras falsas ou de valores distorcidos. Sua recusa na aceitação destas honras o torna “intocável” aos olhos dos que costumam manipular/seduzir/comprar os outros com seus “subornos” de bajulação ou de negociação política.

O resultado inevitável é que eles serão perseguidos, pois sua postura e testemunho, denunciam o erro do grupo majoritário bajulador-bajulado. O comportamento dissonante dos pobres e humildes representam uma ameaça que precisa ser barrada e oprimida em prol da manutenção da posse, da vanglória e da soberba do grupo “majoritário”.

Considerações finais

Então, isto para mim explica muita coisa. É uma chave heurística: um “achado” que identifica as respostas para muitas perguntas na comunidade cristã.
·      “Por que progridem os maus?”
·      “Por que muitos dos poderosos em algumas comunidades religiosas são espiritualmente tão incompetentes?”
·      “Por que pessoas consagradas ao evangelho não têm apoio, enquanto há muito espaço para projetos ambiciosos de alguns?”

A proposta das duas bandeiras e escadas pode ser uma resposta para essas questões. Pessoas que se abrigam sob diferentes bandeiras e caminham em escadas diferentes, terão resultados opostos.

Aqueles que são de Cristo não estão no contexto em que se espera receber apoio, honra ou reconhecimento, mas sim uma inevitável discriminação que muitas vezes progride para a perseguição. Não é possível caminhar no trajeto do Cristo sem participar de sua pobreza, humildade e opróbrio.

O sistema de pensamento que busca honra e opera pela vanglória protege-se a si mesmo. As pessoas que assumem tal projeto de vida vão privilegiar apenas o que é de seu interesse: cercar-se-ão de bajuladores e, ao mesmo tempo, perseguirão e rejeitarão todos os que não os bajulam.

O discípulo comprometido com Cristo não se surpreende com sua dificuldade num mundo de bajulação e de busca de valores não cristãos. Pelo contrário, a pobreza, a humildade e o opróbrio são-lhe sinais que confirmam sob qual bandeira e em qual escada ele está.

Referências bibliográficas

DESILVA, David A. Bearing Christ’s Reproach: The Challenge of Hebrews in an Honor Culture. North Richland Hills: BIBAL Press, 1999.

HOLANDA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

INÁCIO de Loyola. Exercícios Espirituais. 3ª Edição. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa, 1999.

MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1998.

NYGREN, Anders. AGAPE AND EROS. London: SPCK, 1957.