quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Oudepo - ainda não: Análise de uma questão difícil.


OUDEPO – οὐδέπω – “Ainda não”
Análise de uma questão difícil.
Álvaro C. Pestana - 2019

O evento da conversão dos samaritanos narrado em Atos 8 esclarece o significado a imposição de mãos apostólicas, ocorrido em Atos 6.6 e 19.6. Esta imposição de mãos, deu aos que a receberam, dons de milagres e assemelhados. Depois desta imposição de mãos, em Atos 6.8, Estevão passa a fazer milagres, coisa inédita para alguém fora do círculo dos Doze. Depois disto em Atos 8.6, Filipe é apresentado como alguém que também faz milagres. Assim, por Estevão e Filipe terem recebido a imposição de mãos apostólicas em Atos 6.6, inferimos que este dom de milagres foi dado a eles. 

Mais tarde no livro de Atos, a imposição de mãos de Paulo sobre doze seguidores de João Batista, rebatizados no batismo em nome de Jesus (At 19.6-7), confirma a informação de Atos 8.18 obtida da constatação de Simão, o Mago, que percebeu que “pelo fato de os apóstolos imporem as mãos, era concedido o Espírito Santo”. 

Simão já tinha observado a capacidade de Filipe de fazer milagres (At 8.12-13). Contudo, com a vinda dos apóstolos Pedro e João, ele notou um poder diferente e maior: o poder de conceder o Espírito Santo por meio da imposição de mãos (At 8.18-19).

Destes eventos, deduzimos que somente pela imposição de mãos de um apóstolo o Espírito Santo seria concedido juntamente com o dom de realizar milagres. 

O resumo geral é o seguinte. O Espírito Santo é doado, segundo o livro de Atos, em três formas: (1) Por meio de ser batizado no Espírito Santo; (2) Por meio de imposição de mãos dos apóstolos; (3) Por meio do batismo cristão (nas águas). As duas primeiras formas já não estão mais disponíveis hoje em dia, logo, os cristãos, hoje em dia, recebem a plenitude do Espírito por meio do batismo (nas águas) em nome de Jesus Cristo (At 2.38-39). Um quadro[1]geral sobre a doação do Espírito Santo, é apresentado:


FORMA DE RECEBER
Receber o Espírito Santo ao ser batizado no/com Espírito Santo
Receber imposição de mãos de um apóstolo
Receber o Espírito Santo no batismo (águas) em nome de Jesus.



EVENTOS e EXEMPLOS
(a) Os doze no dia de Pentecostes (At 2.1-4, 33)
(b) Cornélio e sua casa (At 10.44-48; 11.15-18; 15.8)
(a) Os sete helenistas (At 6.6; 6.8; 8.12-13)
(b) Os samaritanos (At 8.14-19)
(c) Os doze homens batizados por Paulo (At 19.1-7)
(a) Os quase 3000 no Pentecostes (At 2.38-39);
(b) Saulo (At 9.17-18);
(c) Os coríntios (1Co 12.13);
(d) Todo o cristão recebe o Espírito no batismo (At 19.1-4).



PROPÓSITO
(a) Para os apóstolos: poder para testemunhar (At 1.8);
(b) Para Cornélio e sua casa: para que fossem batizados em Cristo (At 10.47-48; 11.17-18; 15.7-9).
(a) Conceder dons milagrosos (At 8.18; 19.6; 2Tm 1.6) 
(b) Confirmar a palavra pregada (Hb 2.3-4; Mc 16.20).
(a) Conceder o Espírito Santo (At 2.38-39);
(b) Realizar a habitação do Espírito (Rm 8.11; 1Co 12.13; Gl 3. Ef 1.13-14);
(c) Conceder a vida no Espírito (Gl 5.16, 22-23; Ef 5.18; 6.18).





DURAÇÃO
àOcorreu apenas duas vezes, sendo que a segunda vez foi uma exceção para mostrar que Deus aceita os gentios: Atos 2 e Atos 10.
àAtos 11.16 mostra que os eventos de Atos 2 e Atos 10 são similares e únicos – não se repetiam na igreja antiga.
àOcorreu durante a vida dos apóstolos.

àCom a morte deles, esta forma de receber o Espírito cessou.

àA palavra já foi confirmada
àOcorre toda vez que um cristão é batizado (At 2.38; 1Co 12.13).

àVai durar até o fim dos tempos, pois somos selados com o Espírito para o dia da redenção (Ef 1.13-14; 4.30).


DISPONIBILIDADE HOJE EM DIA
Não disponível

Pois a promessa de Atos 1.8 já se cumpriu e os gentios já foram aceitos na igreja.
Não disponível

Pois não há apóstolos e nem a necessidade de nova confirmação da palavra.
Disponível

Até o fim dos tempos os cristãos recebem o Espírito Santo (Ef 4.30).
Contudo, apesar desta solução razoável e quase consensual em nossa comunidade, uma questão específica fica para ser resolvida em Atos 8.14-19. 

Esta questão diz respeito ao verso 16 que afirma que os samaritanos ainda não tinham recebido o Espírito Santo. O que eles não tinham recebido? No texto grego-português abaixo, assinalamos a palavra οὐδέπω, “ainda não”, que carece de esclarecimentos para se compreender o que foi que faltou para os samaritanos.

Texto grego
Nestle-Aland28
Tradução
Nova Almeida Atualizada
14 Ἀκούσαντες δὲ οἱ ἐν Ἱεροσολύμοις ἀπόστολοι ὅτι δέδεκται ἡ Σαμάρεια τὸν λόγον τοῦ θεοῦ, ἀπέστειλαν πρὸς αὐτοὺς Πέτρον καὶ Ἰωάννην, 15 οἵτινες καταβάντες προσηύξαντο περὶ αὐτῶν ὅπως λάβωσιν πνεῦμα ἅγιον· 16 οὐδέπω γὰρ ἦν ἐπ’ οὐδενὶ αὐτῶν ἐπιπεπτωκός, μόνον δὲ βεβαπτισμένοι ὑπῆρχον εἰς τὸ ὄνομα τοῦ κυρίου Ἰησοῦ. 17 τότε ἐπετίθεσαν τὰς χεῖρας ἐπ’ αὐτοὺς καὶ ἐλάμβανον πνεῦμα ἅγιον.  18 Ἰδὼν δὲ ὁ Σίμων ὅτι διὰ τῆς ἐπιθέσεως τῶν χειρῶν τῶν ἀποστόλων δίδοται τὸ πνεῦμα, προσήνεγκεν αὐτοῖς χρήματα 19 λέγων· δότε κἀμοὶ τὴν ἐξουσίαν ταύτην ἵνα ᾧ ἐὰν ἐπιθῶ τὰς χεῖρας λαμβάνῃ πνεῦμα ἅγιον.
14 Quando os apóstolos, que estavam em Jerusalém, ouviram que o povo de Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. 15 Chegando ali, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo, 16 pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. 17 Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo. 18 Quando Simão viu que, pelo fato de os apóstolos imporem as mãos, era concedido o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, 19 dizendo: — Deem também a mim este poder, para que a pessoa sobre a qual eu impuser as mãos receba o Espírito Santo.

No texto acima, o advérbio οὐδέπω, “ainda não”, está em negrito. Os verbos relativos à doação do Espírito estão sublinhados:
·      v. 15 - λάβωσιν = recebessem -------- verbo λαμβάνω = receber
·      v. 16 - ἐπιπεπτωκός = descido ------- verbo ἐπιπίπτω = cair
·      v. 17 - ἐλάμβανον = receberam ------ verbo λαμβάνω = receber
·      v. 18 - δίδοται = era concedido ------ verbo δίδωμι = dar
·      v. 19 - λαμβάνῃ = receba -------------- verbo λαμβάνω = receber

Neste parágrafo, o verbo mais citado é “receber” (3x), enfocando a perspectiva dos samaritanos. Do ponto de vista de Deus, o verbo utilizado é “dar” (1x). O verbo “cair/descer” (1x) enfatiza o movimento de envio do Espírito de Deus para os homens.


O que ocorreu em Samaria? O que os discípulos batizados de origem samaritana “ainda não”, οὐδέπω, tinham recebido? Ou para ser mais preciso, o que “ainda não havia caído sobre eles”? 

Teoria 1: Os samaritanos não foram batizados com o Espírito

Em resumo, a esta teoria afirma que o que os samaritanos não receberam foi a “descida (queda) do Espírito sobre eles”. Os proponentes desta ideia se apoiam no fato que o verbo “cair” só é aplicado à vinda do Espírito Santo nos casos de Atos 2 e Atos 10. Assim, quando Lucas diz que o “Espírito não tinha caído”, estaria dizendo que o que ocorreu em Atos 2 ou que ocorreria, no futuro, em Atos 10, não ocorreu aqui: 
“... toda vez que Lucas usa a expressão dizendo que o Espírito Santo “desceu” ou “caiu sobre” eles, sem exceção, está descrevendo a capacitação miraculosa com os dons milagrosos do Espírito.” (LINCOLN, 2016, p. 181).

“ἐπιπίπτειν é uma palavra lucana (duas vezes em Lc; sete vezes em At; quatro (três) vezes no resto do NT), usada exclusivamente na primeira parte de Atos para falar do dom do Espírito, nunca usado assim na segunda parte. Lucas nunca usa o simples πίπτειν do Espírito.” (BARRETT, 1994, p. 411)

Outro argumento a favor do fato que o que os samaritanos receberam, por meio de Pedro e João, eram dons milagrosos, vem do comportamento de Simão, o mago, que viu algo fora do comum acontecendo:
“... os apóstolos mandaram Pedro e João, dois dos apóstolos, para Samaria com um fim especial: para que os batizados em Samaria pudessem receber o Espírito Santo (At 8.14-15). Será que temos uma contradição? Pois já falamos que estas pessoas em Samaria já tinham recebido o Espírito Santo quando foram batizadas nas águas. E, receberam mesmo, obedecendo Atos 2.38. Mas, este dom do Espírito Santo não é milagroso enquanto os que Pedro e João iriam transmitir eram milagrosos. A transmissão deste dom do Espírito é até mesmo visual, porque Simão “viu” que este dom foi transmitido, quis comprar o dom com dinheiro (At 8.17-18).” (DUTTON, 1980, p. 78).

Esta teoria é a muito difundida e tem a vantagem de dizer que os samaritanos tinham recebido o dom Espírito Santo no batismo (At 2.38), mas o que não havia ocorrido era a “descida do Espírito Santo”, que daria dons miraculosos para eles. Como os samaritanos tinham sido batizados por Filipe, eles teriam recebido o que é normal receber no batismo, conforme Atos 2.38: (a) perdão de pecados; (b) dom do Espírito Santo (que é o próprio Espírito Santo como dom).

O grande problema desta teoria vem do advérbio “ainda não”, οὐδέπω. O uso deste advérbio por Lucas sugere que algo deveria ter ocorrido e que ainda não ocorreu. O advérbio οὐδέπω, “ainda não”, indica “a negação de extensão de tempo até e além de um ponto esperado” (LOUW; NIDA, 2013, p. 575, §67.129).

Texto grego
Nestle-Aland28
Tradução
Nova Almeida Atualizada
16 οὐδέπω γὰρ ἦν ἐπ’ οὐδενὶ αὐτῶν ἐπιπεπτωκός, μόνον δὲ βεβαπτισμένοι ὑπῆρχον εἰς τὸ ὄνομα τοῦ κυρίου Ἰησοῦ. 
16 pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. 

Se Lucas quisesse dizer que o Espírito não “desceu” ou “caiu” sobre eles e que isto não precisaria ter acontecido, o texto poderia ter sido redigido com a partícula negativa “não”, οὐ, da forma como alteramos o texto grego no próximo quadro:

Texto grego hipotético
alterado
Tradução

16 οὐ γὰρ ἦν ἐπ’ οὐδενὶ αὐτῶν ἐπιπεπτωκός, μόνον δὲ βεβαπτισμένοι ὑπῆρχον εἰς τὸ ὄνομα τοῦ κυρίου Ἰησοῦ. 
16 pois o Espírito não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. 

Nenhum manuscrito grego tem esta leitura ou variante. Todos têm οὐδέπω. Logo, esta leitura não é possível para nós.[2]Se queremos levar a sério o que Lucas escreveu, temos que encarar a força do advérbio “ainda não”, οὐδέπω. O que observa comparando o original com nossa versão hipotética pode ser apreciado na citação abaixo:
“Há uma distinção importante entre as palavras oudepoou, assim como há na maioria das línguas alguma distinção simbólica entre um evento que ainda não acontece[u] e o que não acontece (BRUNER, 1983, p. 139)

Quando se diz que o “ainda não”, οὐδέπω, refere-se aos dons milagrosos do Espírito (ligados ao verbo “cair/descer” = ἐπιπίπτω), cria-se um problema: tal forma de falar acaba afirmando que uma “descida do Espírito” deveria acontecer e não aconteceu. Ou seja, estaremos dizendo que o evento de Atos 2 deveria ocorrer de novo em Samaria.

Afirma-se que os cristãos batizados conforme Atos 2.38 devem esperar “o cair do Espírito” na forma de dons milagrosos para todos os crentes é uma posição não coerente com o resto do Novo Testamento e não é aceitável para os cessacionistas.

Afirmar que o “cair do Espírito” refere-se apenas aos dons milagrosos e não ao próprio dom do Espírito Santo conforme At 2.38, indiretamente afirma a próxima teoria, pois o “ainda não” sugere que algo normal não aconteceu, ou seja: estamos afirmando que os eventos de “cair/descer do Espírito” sobre os crentes é uma experiência normal a ser esperada em toda comunidade cristã em todos os tempos.

Teoria 2: Os samaritanos não foram batizados com o Espírito mas deviam ter sido

A leitura do “ainda não”, οὐδέπω, por grupos carismático-pentecostais poderia favorecer sua teoria que todos os cristãos de todas as épocas poderiam e deveriam receber dons milagrosos do Espírito Santo. 

Conforme bem observou MacArthur Jr. (1981, p. 90), o pensamento carismático-pentecostal tem em Atos 8.16 “um exemplo da doutrina da subsequência”. Ou seja, “ainda não”, οὐδέπω, “não significa apenas algo que não aconteceu, mas que algo que deveria ter acontecido, ainda não aconteceu” (MACARTHUR JR., 1981, p. 90).

Neste ponto, a teologia pentecostal-carismática passa a reclamar a necessidade da vinda do Espírito de modo milagroso para todos os cristãos. No ponto de vista desta teologia, isto devia ter ocorrido em Samaria e “ainda não” ocorreu. A visita dos apóstolos remediou a situação.

Embora Atos 2.38 afirme que o batizado recebe perdão e o dom do Espírito Santo, o movimento pentecostal considera que o sinal da vinda do Espírito é falar em línguas ou apresentar alguma forma miraculosa de atuação do Espírito. Eles chamam este evento de “Pentecostes Samaritano”. A ênfase deles é que os pentecostais precisavam manifestar visivelmente, pelo dom de línguas, a vinda do Espírito: 
“Como poderiam saber que haviam sido batizados com o Espírito Santo, a menos que o demostrassem por um meio que fosse além de um êxtase expressado em alegria?” (BRUNELLI, vol. 2, 2016, p. 228)

Assim, os pentecostais e carismáticos vão dizer que o Espírito não veio aos samaritanos pelos meios normais: “não houve ali batismo com o Espírito Santo” (BRUNELLI, 2016, p. 227). A suposição é que o “ainda não” refere-se ao “batismo com o Espírito Santo”[3][sic.].

O primeiro problema com esta teoria que o “ainda não” refira-se a um “batismo com/no Espírito Santo” decorre do fato que o livro de Atos mostra que o que ocorreu em Atos 2 só ocorreu de novo em Atos 10 e pela narrativa bíblica, nunca mais (At 11.15-16). Logo, o “ainda não” não pode referir-se ao “ser batizado no/com o Espírito”. 

Um segundo problema é que Efésios 4.5 afirma que há um só batismo para a comunidade cristã, logo, o batismo nas águas é o que permanece e os outros atos descritos com o verbo “batizar” fazem parte da história, mas não do “ainda não” da igreja, ou seja, das coisas que deveriam sempre acontecer.

Em terceiro lugar, o problema com esta teoria é que se este “ainda não” refere-se à doação dos dons milagrosos a todos os cristãos como uma “doutrina da subsequência”, ou seja, que uma manifestação sobrenatural do Espírito é obrigatória e necessária para todos os cristãos, então o livro de Atos falha em confirmar esta teoria, pois o que se percebe é que: (a) o ser batizado com o Espírito só ocorreu em Atos 2 e em Atos 10; (b) as outras doações de dons milagrosos do Espírito sempre foram mediadas pela imposição de mãos apostólicas (At 8.18; 19.6). Nos primeiros 5 capítulos de Atos, só os apóstolos manifestam poderes sobrenaturais. Os primeiros não-apóstolos a manifestarem poder de fazer milagres são aqueles que receberam imposição de mãos de um apóstolo.

Percebe-se, justamente em Atos 8, que somente os apóstolos poderiam passar o dom aos samaritanos. Apesar de Filipe ter recebido o poder de fazer milagres por imposição de mãos (At 6.6) ele não os podia passar aos samaritanos. Isto destrói a ideia de que o “ainda não” pudesse ser resolvido pela simples imposição de mãos de Filipe.

A teoria da subsequência falha por não poder apresentar os meios desta subsequência: (a) ninguém mais foi batizado no Espírito como Atos 2 e 10; (b) ninguém que não fosse apóstolo poderia transmitir dons sobrenaturais do Espírito.

Assim, apesar dos exegetas carismáticos levarem a sério a palavra “ainda não”, não conseguem ligar este “ainda não” com a continuidade do “ser batizado com o Espírito” e nem conseguem que a imposição de mãos apostólicas tenha continuidade depois da morte dos apóstolos. Logo, o “ainda não” que devia ter ocorrido, mas não ocorreu, não pode referir-se à manifestação de dons milagrosos do Espírito Santo.

Isto nos leva à terceira teoria, que, ao nosso ver, soluciona todas as questões e oferece uma resposta coerente para o problema.

Teoria 3: Os samaritanos não receberam nada do Espírito

Esta terceira hipótese tem sido defendida pela simples leitura do texto, sem preocupação com esta ou aquela linha teológica, no que diz respeito ao cessacionismo ou ao pentecostalismo-carismatismo. 

Também se parte do pressuposto que muitas coisas narradas em Atos não são coisas normais, mas excepcionais. Uma experiência narrada em Atos só pode ser tomada como “norma” ou “padrão” se outros textos claramente o indicarem. Em textos narrativos, o poder normativo depende de análise do resto do Novo Testamento e do contexto.

O que ocorreu com os samaritanos, em Atos 8 foi uma aberração, uma exceção: eles foram batizados conforme Atos 2.38, mas “ainda não” (οὐδέπω) receberam o Espírito Santo. Contudo, deviam ter recebido, mas apenas (somente –monon) receberam o batismo: “Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus” (At 8.16). 

Vários comentaristas assinalam o fato que esta situação é um desvio da regra normal:
“... os crentes samaritanos, apesar de batizados por Filipe ‘no nome do Senhor Jesus’ (v. 16), não tinham recebido, no mesmo momento, o dom do Espírito Santo.” (BRUCE, 1977, p.181).

“o Espírito não havia ainda descido sobre nenhum deles (para esta expressão, ver 10.44; 11.15). Tudo quanto acontecera era que haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus. Esta é, talvez, a declaração mais extraordinária em Atos. Noutros trechos, fica claro que o batismo em nome de Jesus leva ao recebimento do Espírito (2.38)” (MARSHALL, 1982, p. 152)

“O quadro deu um batismo sem a recepção do Espírito não vem de um antigo não-ou-pré-pneumático entendimento do batismo. Esta é uma construção ad hoc (cf. 10.44-48; 19.1-7) que pressupõe precisamente a íntima conexão entre batismo e o Espírito.” (CONZELMANN, 1987, p. 67).

“... o que faltava a estes discípulos era o dom do Espírito Santo. A pergunta óbvia depois disso é: por que? E a única resposta possível é que não sabemos. No já citado texto, 2.38, Pedro parece indicar que o dom do Espírito Santo virá sobre todos que estão ouvindo logo que ser arrependerem e forem batizados. [...] tudo o que pode ser dito é que, de acordo com Atos, o Espírito é absolutamente livre para decidir onde ser derramado e onde se manifestar...” (GONZÁLEZ, 2011, p. 137-138)

Frederick Dale Bruner (1983), em seu livro clássico “Teologia do Espírito Santo”, trabalha muito bem a questão. Ele afirma que:
“No relato das conversões samaritanas, temos o único registro do Novo Testamento de pessoas que creram, aceitaram o batismo cristão, e que mesmo assim ainda não receberam o Espírito Santo” (BRUNER, 1983, p. 137).

Para este autor, o batismo cristão e o dom do Espírito Santo sempre foram uma coisa só para a igreja primitiva (BRUNER, 1983, p. 138). Contudo, o que ocorreu em Samaria era algo fora do comum. O texto de Atos 8.16 marcou isto com duas palavras: “ainda não” e “somente”:
“Lucas relata que os crentes samaritanos somente(monon) tinham sido batizados, indicando que o suficiente ainda não ocorrera, como realmente não tinha. Ser batizado e não receber o Espírito Santo era uma anormalidade e, de fato, conforme a passagem passa a ensinar, uma contradição de realidades cristãs. Esta impossibilidade é ressaltada por uma palavra ainda mais importante no v. 16. A palavra introduz o versículo e é acentuada por sua posição no início da frase em grego: ‘Ainda não oudepohavia caído o Espírito Santo sobre nenhum deles’. O significado é o seguinte: O Espírito devevir com o batismo, mas esta vinda ‘ainda não’ ocorrera. O relacionamento entre o batismo e o Espírito, indica o ‘ainda não’, é o relacionamento da coesão. (BRUNER, 1983, p. 139).

Para Bruner, o evento de Atos 8 foi uma grande exceção para assegurar duas lições importantes: “a centralidade dos apóstolos e a união da igreja” (BRUNER, 1983, p. 139). “Tanto a tradição quanto a união foram conservadas através da visitação apostólica” (BRUNER, 1983, p. 138). 

Assim, o evento samaritano é a exceção que prova a regra: o normal é receber o Espírito no batismo (At 2.38), mas em Samaria, a regra não foi seguida para que algo superior se alcançasse: (i) paz entre os judeus e os samaritanos; (ii) continuidade de testemunho cristão apostólico transcultural; (iii) unidade na igreja.

Intérpretes mais antigos, de igrejas que valorizam os sacramentos e a sucessão apostólica, têm a tendência de ver neste texto outras coisas: (i) ou justificam o sacramento da confirmação; (ii) ou justificam a sucessão apostólica (BRUCE, 1977, p. 182; LONGENECKER, 1981, p. 359). Não discutirei aqui estas perspectivas por serem um olhar tardio retroprojetado anacronicamente para o texto antigo que não faz nenhuma referência a tais costumes.

Alguns tentam explicar o problema em Samaria de dois outros modos: (1) Filipe não seria uma pregador apto para realizar o trabalho e por esta causa o trabalho ficou “incompleto” até que os apóstolos viessem; (2) O erro que não transmitiu o Espírito aos samaritanos foi a fórmula batismal equivocada que ocorre aqui “em nome do Senhor Jesus”, εἰς τὸ ὄνομα τοῦ κυρίου Ἰησοῦ. Não irei discorrer longamente sobre estas duas objeções, mas oferecerei duas respostas rápidas, que ao meu ver, eliminam estas objeções. Sobre a explicação (1), o texto bíblico em nada desqualifica Filipe e ele não teve qualquer dificuldade na continuidade de seu trabalho com o eunuco etíope e nas muitas cidades que evangelizou (At 8.26-40). Sobre explicação (2), as fórmulas batismais neotestamentárias são variadas e equivalentes – não é necessário encontrar controvérsias posteriores nestes textos tão primitivos.

RESUMO E CONCLUSÕES

Para sistematizar o que foi discutido, apresento a seguinte tabela resumo:
Teoria 1
Teoria 2
Teoria 3
Samaritanos não receberam nada milagroso do Espírito Santo
Samaritanos não receberam nada milagroso do Espírito Santo,
mas deviam ter recebido algo milagroso
Samaritanos não receberam nada do Espírito Santo.
Atos 2.38 ocorreu
[Atos 2.38 não conta]
Atos 2.38 não ocorreu
Receberam o perdão de pecados e receberam o dom do Espírito Santo
Receberam o perdão de pecados
Receberam o perdão de pecados e nãoreceberam o dom do Espírito Santo
A imposição de mãos deu os dons milagrosos
A imposição de mãos deu os dons milagrosos
A imposição de mãos deu o Espírito Santo que não tinha vindo no batismo
Não ocorreu exceção: eles tinham o dom do Espírito, mas não os poderes miraculosos do Espírito.
Ocorreu uma exceção:
o ser batizado no Espírito Santo não ocorreu.
Ocorreu uma exceção: eles foram batizados para perdão de pecados, mas o Espírito Santo só veio pela imposição de mãos dos apóstolos.
Tradicional
Pentecostal
Solução
Pontos fortes: respeita a normalidade de Atos 2.38.
Pontos fortes: leva a sério a linguística do texto.
Pontos fortes: leva a sério a linguística do texto.
Pontos fracos: tropeça na linguística e fica inconsistente com o cessacionismo.
Pontos fracos: requer uma norma que não se confirma no resto dos Atos e do NT.
Pontos fracos: requer uma exceção inesperada em Samaria com respeito a Atos 2.38.

Pessoalmente, no passado entendia a perspectiva da teoria 1 como a mais adequada, mas depois de “ler” as exigências da linguagem do texto, optei pela teoria 3. A teoria 1 é inconsistente com o cessacionismo dos dons milagrosos.

Espero que este estudo contribua para o melhor entendimento deste importante detalhe da história da igreja e seu desenvolvimento em unidade e verdade.

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BIBLIOGRAFIA CITADA:

BARRETT, C. K. A Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles: Volume 1 - Preliminary lntroduction and Commentary on Acts I-XIV. Edinburgh: T&T CLARK, 1994.
BRUCE, F. F. Commentary on the Book of Acts of the Apostles. Grand Rapids: Eerdmans, 1977.
BRUNELLI, Walter. Teologia para Pentecostais:uma teologia sistemática expandida. Vol. 2. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
BRUNER, Frederick Dale. Teologia do Espírito Santo. São Paulo: Vida Nova, 1983.
CAMPBELL, Alexander. Acts of the Apostles: translated from de Greek on the basis of the Common English Version. Nashville: Christian Family Books, 1858.
CONZELMANN, Hans. Acts of the Apostles (Hermeneia). Philadelphia: Fortress Press, 1987.
DUTTON, Garner Allen. O Espírito Santo de Deus: No Eterno Propósito. São Paulo: Vida Cristã, 1980. 
GONZÁLEZ, Justo L. Atos: O Evangelho do Espírito Santo. São Paulo: Hagnos, 2011.
LINCOLN, C. W. “Abe”. Comentário do Livro Atos dos Apóstolos: Os Primeiros Anos do Cristianismo. Recife: Ed. EBNESR, 2016.
LONGENECKER, Richard N. The Acts of The Apostlesin: GAEBELEIN, FRANK E. The Expositors Bible Commentary John and Acts. Vol. 9. Grand Rapids: Zondevan, 1981.
LOUW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico Grego-Português do Novo Testamento: baseado em domínios semânticos. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.
MACARTHUR JR, John F. Os Carismáticos. São Paulo: Ed. Fiel, 1981.
MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1982.
PESTANA, Álvaro César. O Espírito Santo (parte 1). São Paulo: Editora Vida Cristã, 2000.



[1]Também em PESTANA, Álvaro César. O Espírito Santo (parte 1). São Paulo: Editora Vida Cristã, 2000, p. 25-27. Também disponível em www.teologiaemcasa.com.br/cursos
[2]Encontrei a leitura οὐπω no texto grego da obra CAMPBELL, Alexander. Acts of the Apostles: translated from de Greek on the basis of the Common English Version. Nashville: Christian Family Books, 1858, p. 54. O termo é um sinônimo de οὐδέπω, mas é estranho encontrar esta variação aqui, já que não se baseia em nenhum manuscrito.
[3]Apesar de citarmos vários autores que usam a expressão “batismo com/no Espírito Santo”, entendemos que esta frase e construção não é bíblica: nunca o Novo Testamento usa a frase “batismo do/no/com Espírio Santo”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Todos pecaram...

Todos pecaram...
Álvaro C. Pestana
2018

Não foi só Davi e Bate-Seba que pecaram naquela tarde…

Os conselheiros, cortesãos e até mesmo os empregados do palácio pecaram…

Pecaram por não dizer: “Meu rei… isto não está certo!”
Pecaram por não lembrar a Davi: “Meu senhor, tu já tens várias esposas!”
Pecaram por não recitar a lei: “Está escrito: Não adulterarás!”

Não houve uma pessoa de bem para protestar contra o pecado que se ensaiava…

Os que tomaram qualquer conhecimento do que ia ocorrer pecaram…

Os que não quiseram pensar no assunto e se desviaram da situação, pecaram...

Pecaram por omissão… por autopreservação… por medo do poder… por covardia.
Pecaram por não posicionar-se diante da prepotência, da arrogância, do egoísmo, da traição e da falta de temor a Deus…
Pecaram por obedecer ao rei e ir até a casa de Bate-Seba, chamar uma mulher casada para o leito de seu rei. 
Pecaram por obedecer ao rei…

Os que de qualquer forma contribuíram para a ação de Davi, pecaram…

Pecaram por arrumar os lençóis do quarto… 
Pecaram por receber Bate-Seba no palácio… 
Pecaram por ficar em silêncio… 
Pecaram por não impedirem o mal que se delineava diante de seus olhos… 
Pecaram por não pensar em Deus ou em Urias… 
Pecaram por pensar só em si mesmos e em seus projetos pessoais egoístas…

Os que fecharam os olhos, os ouvidos, as cortinas e as portas, pecaram…

Pecaram, talvez, por conta de seus profundos desejos reprimidos… por voyerismo… por imaginar-se pecando também no pecado de seu rei… 
Pecaram por imaginar a iniquidade como coisa boa… como se fosse um entretenimento…

Pecaram por preferir a fofoca e o comentário de bastidores depois do pecado do que o enfrentamento corajoso da situação, antes que acontecesse. 

Pecaram por “deixar rolar’’… pecaram por “não ser de sua conta” e por “não ter nada a ver comigo”…
Pecaram por não defender o direito do mais fraco, do ausente, do que não tinha voz, Urias… 
Pecaram por não dizer: “Não!”, por não alçarem a voz pelo direito, pela verdade, pela justiça, pela lei.

Os que apoiaram ou incentivaram o rei, certamente, pecaram…

Pecaram, talvez, por pensar que um rei tem o direito de fazer o que quer… 
Pecaram por pensar: “O rei é a lei!”

Pecaram, talvez, por justificar o pecado, afinal, Urias era um estrangeiro, um hitita, um antigo inimigo do povo de Deus… 

Pecaram, talvez, por legalizar o pecado, afinal, Bate-Seba era filha de um israelita, e não devia ter se casado com um estrangeiro…

Pecaram, talvez, por culpar Urias pelo pecado que ocorreria: “Onde está o marido desta mulher?” Ou ainda dizer: “Quem não cuida, perde!” 

Pecaram por desejar o mal a um homem de bem.

Houve muito pecado, naquela tarde em Jerusalém…

Omissão continua sendo pecado que possibilita muitos outros pecados…


A menina com o seu bebê

A menina com o seu bebê
Álvaro C. Pestana
2018

Caminhando pela ampla calçada de uma larga avenida de Jaboatão dos Guararapes, PE, não pude deixar de notar, na mesma calçada e em sentido contrário, uma jovem mãe que carregava seu bebê. Era evidente que ela era muito jovem, menor de idade, talvez, quando muito, com uns 16 anos… 

Ela passou com seu bebê no colo, aninhado num daqueles “cangurus” que seguram a criança junto ao seu corpo. Observei-a discretamente e meditei no quadro que ficou impresso em minha mente naquele rápido cruzamento entre transeuntes. 

Eu nada sabia sobre ela e creio que nem saberei... afinal, ela, simplesmente, passou por ali e se foi.

Mas, eu fiquei a pensar: muito jovem para ter uma criança!! Casou-se? Foi um descuido? Muitas perguntas, talvez, sem fundamento e, certamente,  sem respostas. Porém, o fato é que ela tinha uma criança, e este pensamento superava todos os outros em minha mente: ela tinha uma criança

Ela tinha, possuíaalgo que não existia antes! Ela parecia ser uma mocinha pobre: levando em conta aquele jeito simples de se vestir e andar, sua solidão, sua aparente falta de recursos e segurança. Andava naquela avenida sem indicar estar se dirigindo ao seu carro... parecia ser alguém que anda de ônibus. Não ostentava os claros sinais de poder de nossa sociedade: tinha o jeito de pessoa pobre que é desprovida.

Pobre já nasce desprovido e experimenta, a todo instante, a privação real e divulgada pelas mídias que só valorizam as pessoas que têm algo a mais. Bem, aquela mocinha podia ser do tipo que não tem nada, só que agora, ela tem uma criança em suas mãos, ela é mãe e sua vida tem um novo sentido

Enfim… pode ser que tudo isto só exista em minha cabeça e só tenha a ver comigo e com minha visão sobre ter e ser... fiquei tocado com a possibilidade dela possuir algo que veio “do nada”, mas que preenche totalmente uma vida... ela tinha uma criança.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Fé como humanização

Fé como humanização 
Álvaro C. Pestana
2018

O surpreendente da fé cristã, é que o evangelho pede que creiamos em pessoas, em homens, em indivíduos comuns na sua época tais como Pedro, Paulo, João e Tiago. 

Crer em pessoas é uma das coisas mais difíceis de fazer, pois a experiência nos mostra que o processo leva a inevitáveis frustrações, decepções e, ocasionalmente, ira e ressentimento quando percebemos que nossa fé foi abusada.

Pedro, contudo, diz que o que pregou não foi inventado, mas que ele mesmo foi testemunha ocular dos acontecimentos que relatou (2Pe 1.16-21). Paulo, da mesma forma, alista as testemunhas do evangelho finalizando a lista com seu próprio nome (1Co 15.1-11). João e sua comunidade insistem em dizer que a testemunha cujo relato se recolhe na narrativa não só era testemunha ocular de valor inconteste como também que seu relato corresponde ao que foi visto, ou seja, é a verdade!

Por incrível que pareça, antes de crer em Deus, temos que crer nos homens!!

Este é o maior empecilho do evangelho, e provavelmente, uma principais razões pelas quais ele é, de fato, um evangelho — uma boa nova.

Crer em Deus é fácil, ou seria fácil, se ele saísse da penumbra, fizesse uma aparição cheia de glória que acabasse com nossa liberdade de crer ou não crer: sua revelação esmagaria nossa opção pela fé - nunca mais haveria fé. Conforme alguns cientistas da religião tentaram expressar no passado, a presença de Deus em pessoa não gera fé, mas assombro, maravilha, terror, atração e um misto de outros sentimentos ora paradoxais ora difíceis de definir.

Parece que Deus não resolveu usar este meio como seu método “normal” (se é que é lícito falar de normalidade neste tema) de falar com os homens. Sem negar as teofanias e as revelações divinas perturbadoras e maravilhosas, o método de Deus para produzir fé é bem mais primitivo, prosaico e, até mesmo, pobre: ele quer que tenhamos fé nas pessoas que nos falam sobre ele.

Quase poderíamos, com base nisto, deduzir que a revelação máxima de um Deus assim não será uma aparição celeste gloriosa, mas creio que um Deus que escolheu este caminho, provavelmente tomará o propósito de se fazer pessoa para ser crido não como Deus, mas como homem: ele quer que tenhamos fé nas pessoas.

Isto se complica muito, pois as pessoas não são dignas de fé. Pelo contrário, na política, na religião, nos negócios, no amor, na amizade e em muitas áreas da atividade humana, o que mais existe é o abuso da fé e da confiança - é quase uma certeza, uma coisa que se espera ou uma convicção de um fato que ainda não se vê: a pessoa em quem confiamos vai nos decepcionar.

Contudo, fé é tudo o que precisamos para lidar uns com os outros.

De fato, todos os relacionamentos, de uma forma ou outra, trabalham algum tipo de fé no outro. Quando compramos um produto em um balcão, o vendedor nos dá o produto e espera nosso pagamento. Ou o contrário: pagamos e esperamos que ele nos dê o produto. Enfim, imagine como a vida seria difícil se a cada compra tivéssemos que “simultaneamente” largar o dinheiro com a esquerda enquanto recebemos o produto com a direita!! A vida não funcionaria de modo algum. Cada momento da vida seria altamente tenso, com a necessidade de vigilância e desconfiança máximas a todo tempo. Seria como andar em meio a um tiroteio todos os dias!! Não se vive assim… temos que acreditar que o outro vai fazer algo conforme o combinado, conforme o socialmente definido, conforme o civicamente determinado… enfim, temos que confiar que o outro vai agir, até certo ponto, corretamente.

Confiamos todo o tempo… temos fé todo o tempo. Claro que não arriscamos muito: quando há grandes valores envolvidos ou uma situação de risco, nos cercamos de garantias e seguranças, mas em geral, no dia a dia, confiamos em quase todos

Sem fé, é impossível agradar a Deus (Hb 11.6). Se fé é certeza de coisas que se esperam, convicção de fatos que não se veem (Hb 11.1) então isto se aplica a muitas outras coisas. Sem fé, é impossível ser humano… agir com certeza que as coisas que esperamos serão correspondidas… estar certo que coisas que não vemos, serão concretizadas… tudo isto apesar do ser humano e de sua completa falta de fidelidade!!!

Logo, todos tem fé… sem fé (de alguma forma), não se vive…  Com fé nos achegamos aos homens e assim também a Deus.


“Andar com fé eu vou, porque a fé não costuma falhar”. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

E ainda se pode pensar em Arqueologia Bíblica?

E ainda se pode pensar em Arqueologia Bíblica?
Álvaro C. Pestana
2018

Os debates entre arqueologia minimalista maximalista no fim do século passado e neste atual levaram alguns a ridicularizarem a frase ‘Arqueologia Bíblica’. Não poderia ser usada ou, se for utilizada, só pode ser brincadeira, ignorância, obscurantismo ou (agora, o grande ‘palavrão’) fundamentalismo!

Os mestres da suspeita, niilistas, negadores de tudo, sempre dizem “Não”. Tudo está errado, tudo é lenda, tudo é mentira, tudo é ignorância, tudo é etiologia falsa, tudo é profecia depois do evento, tudo é criação da imaginação. 

Para eles, o que querem encontrar com sua pesquisa é apenas a confirmação de seu mote oculto: “A Bíblia estava errada”, “A Bíblia não tinha razão” ou “A Bíblia não importa”. Seus alvos são outros: políticos, humanísticos, ideológicos, pessoais etc. Sua chave hermenêutica para entender o mundo e o que procuram, está em outro lugar. Tudo bem... cada um escolhe sua forma de ler o mundo e as coisas. Em nossa pós-modernidade, se é que ela existe, já sabemos que não existe leitura sem óculos: todos fazem seus trabalhos a partir de pressupostos e de alvos a serem alcançados. O que se encontra é definido pelo que se procura: “buscai e achareis” – vale para todas as ciências!

Portanto, quem disse que não posso me apropriar das descobertas arqueológicas, dos estudos culturais, antropológicos, etnológicos, históricos, linguísticos, biológicos, físicos, químicos, astrofísicos, filosóficos, artísticos etc. em favor da fé? Por que o pressuposto da dúvida e da suspeita não pode ser posto em dúvida e suspeita? Por que a relatividade das coisas não pode ser relativizada? Por que o pressuposto de fé não poderia ser utilizado? Por que só o pressuposto de fé na descrença é válido? 

Pelo que eu me lembre, a única árvore da qual não devo (voltar a) tentar comer é aquela que decorre do desejo de saber (e ser) como Deus. Uma vez já se provou tal fruta e os resultados foram mortais em todos os sentidos. Hoje, justamente, a morte da razão, da esperança e do saber decorre dos que se alimentam da ilusão de serem como Deus e se descobrem sem terra sob os pés, sem céus sobre si... estão no limbo do não-ser-e-não- saber. Em vez de participar do creatio ex-nihilo vivem damnationem quia nihil.

É bom lembrar que os que comeram o fruto do conhecimento para ser como Deus só ficaram envergonhados com sua natureza desprovida de tudo e desenvolveram tecnologias para disfarçar sua absoluta pobreza e desprovimento natural. Tomar posturas de divindade acabam por revelar as fraquezas da humanidade que por sua vez podem levar a ocultar-se dos outros e até mesmo de Deus: que ele não exista para nos encontrar!

Então, posso degustar do fruto da arqueologia, dentro de minha perspectiva de fé, sem dificuldade, pois credo ut intelligam, creio para compreender. Posso usar a arqueologia para corroborar com minha fé, posso interpretar a arqueologia dentro de minha perspectiva fideísta, sabendo que não é a única, mas é a minha. Posso viver com a fé que conduz a minha vida, evitando o erro de ter fé na descrença. Muitos ainda não perceberam o quanto a fé na descrença é, também, forma anômala de fé: ser crente fundamentalista da não-crença sem se aperceber quão angustiante é esta fé.

Na verdade, o diabo parece ter sido o primeiro mestre da suspeita, dizendo que “não se podia comer fruto nenhum”. Ora, contradizendo isto, Paulo que disse aos cismáticos coríntios, que se polarizavam e se dividiam por adoção de uma coisa contra outra, que “tudo é vosso”. Eles não precisavam dividir... podiam fica com tudo! 

Todas as ciências, são nossas! Até a descrença e a desconfiança de Tomé é nossa... serve, ao depois, de prova do vigor e do valor da fé sobre a dúvida: prova que “o algo” é sempre melhor que “o nada”.

A arqueologia bíblica está aí para mostrar que a fé ainda é o sólido fundamento da descoberta científica esperada (ἐλπιζομένων ὑπόστασις), prova experimental do invisível (πραγμάτων ἔλεγχος οὐ βλεπομένων), conforme se pode traduzir do famoso texto: Ἔστιν δὲ πίστις ἐλπιζομένων ὑπόστασις, πραγμάτων ἔλεγχος οὐ βλεπομένων (Hb 11.1).

A arqueologia bíblica ou qualquer outra arqueologia, pode tomar como pressuposto: (i) a Bíblia deve estar certa; (ii) a Bíblia deve estar errada; (iii) a Bíblia é irrelevante e não conta. São pressupostos, todos com sua validade condicionada a outros pressupostos sustentados pelo arqueólogo. 

Sem tentar entrar nas profundezas do pensamento dos outros, podemos falar por nós e pelos que têm fé. Por seguir a pessoa de Jesus que disse “a Escritura não pode falhar” (καὶ οὐ δύναται λυθῆναι ἡ γραφή), também pressupomos que a Bíblia deve estar certa.

Por muitas vezes, esta fórmula já se mostrou, experimentalmente verdadeira... No Século XVIII e sobretudo no XIX muito se afirmou contra a historicidade de quase toda a narrativa bíblica, até mesmo do Novo Testamento. Contudo, depois de algumas descobertas arqueológicas, o “jogo virou” e o antigo escárnio sobre o texto bíblico tornou-se silêncio e uma amnésia geral veio sobre a comunidade científica zombadora de modo que não se pediu desculpas pelo passado, afinal, a ciência progrediu! Enfim, temos boas razões para aguardar que as descobertas arqueológicas, interpretadas por quem tem fé, no futuro desfaça as atuais certezas da incerteza do texto bíblico: “se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25) – o que vale para a fé em geral, vale para a arqueologia em particular. 

“O justo vive por fé” (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38 – Hc 2.4).